sexta-feira, 7 de julho de 2017

Arqueólogos descobrem ‘Túmulo de Gigantes’ na China

Pesquisadores na China descobriram restos de esqueletos de um grupo incomumente alto de indivíduos que viveram na província de Shandong, na China, há cerca de cinco mil anos. Com alguns deles alcançando alturas bem acima de 1,82 metro, esses humanos neolíticos eram um sinal do que viria pela frente.

Como relatado no Xinhua, uma escavação arqueológica na vila de Jiaojia, no distrito Zhangqiu, da Cidade de Jinan, levou à descoberta de 104 casas, 205 túmulos e 20 buracos de sacrifício. Cerâmica e vários itens de jade também foram encontrados. O local do fim do Neolítico data de um tempo em que o Vale do Rio Amarelo era habitado pela Cultura Longshan, também conhecida como Cultura da Cerâmica Negra, que prosperou na área de cerca de 3000 a 1900 a.C. A escavação arqueológica, que começou no ano passado, está sendo liderada pela Universidade de Shandong.

Significativamente, uma análise dos restos de esqueletos encontrados nesse local sugere que essas pessoas antigas eram extravagantemente altas, com muitos indivíduos medindo acima de 1,80 metro, relata Xinhua. Embora o estudo não relate quantos indivíduos foram escavados ou sua divisão de gênero, o mais alto, um homem, media 1,90 metro. Para seus vizinhos contemporâneos, o povo Longshan provavelmente parecia feito de gigantes (os homens médios do Neolítico tinham cerca de 1,65 metro, e as mulheres, 1,54 metro, de acordo com um estudo).


Sua altura incomum era provavelmente consequência tanto da genética quanto do ambiente. Aliás, a altura segue sendo uma característica definidora de pessoas vivendo na província atualmente. Em 2015, a média de altura de um homem de 18 anos em Shandong era de 1,75 metro, cinco centímetros a mais que a média nacional.



Mas para o povo Longshan, o ambiente pode ter tido um papel igualmente importante. Como explicou o arqueólogo Fang Hui ao Xinhua, essa civilização do fim do Neolítico participava de atividades de agricultura, então os aldeões tinham acesso a uma gama diversa de comidas nutritivas. O milheto era uma grande safra na época, e porcos eram um gado importante. Essa dieta estável, disse Hui, teve um efeito em suas proporções físicas, incluindo a altura. De modo interessante, os homens mais altos dos Longshan foram encontrados em tumbas, algo que os arqueólogos de Shandong atribuíram a um maior status social e ao acesso a melhor comida.


Como apontado, maioria dos humanos pré-históricos eram pequenos em comparação com o povo Longshan, tendo menos acesso a uma dieta balanceada, um menor fluxo de comidas nutritivas e possivelmente tendo que viver em condições ambientais duras. O povo maia, por exemplo, estava entre os menores dos humanos pré-históricos, com o homem tendo uma altura média de 1,57 metro, e a mulher, de 1,42 metro.

Mas a altura pode ter aparecido como um traço genético vantajoso entre certas populações muito antes do Neolítico e do povo Longshan. Um estudo recente da Universidade Masaryk, na Tchéquia, propôs que os genes para altura elevada apareceram entre os gravetianos — um bando de caçadores-coletores que viveram no Sul da Itália de 50.000 a 10.000 anos atrás. Esses europeus do Paleolítico Superior, cujo mais alto tinha 1,77 metro, eram caçadores de mamute, o que pode ter tido algo a ver com sua altura.

“Suspeito que essa especialização associada com um excedente de proteínas de alta qualidade e uma baixa densidade populacional tenha criado condições ambientais levando à seleção dos machos excepcionalmente altos”, disse o autor principal do estudo, Pavel Grasgruber, em entrevista ao Seeker.

Isso pode explicar por que europeus dos Alpes Dinaricos (albaneses e eslavos do sul, particularmente), geneticamente relacionados aos gravetianos, são tão altos até hoje. Mas a boa estatura não é exclusiva dos europeus; outros humanos incomumente altos incluem os khampas tibetanos e o povo nilótico, do Sudão.

Determinar por que certos grupos de pessoas são menores ou maiores que outros segue uma ciência inexata, que depende de muitas variáveis. Entramos em contato com vários especialistas para ouvir sua opinião sobre o assunto e vamos atualizar se tivermos alguma resposta interessante. Talvez nunca saibamos por que o povo Longshan era tão alto, mas, considerando que os humanos nunca foram tão altos quanto são hoje, esse povo antigo era certamente um sinal dos tempos.

Fonte: IBTimes



sábado, 17 de junho de 2017

Arqueólogos descobrem mensagem secreta em cerâmica dos tempos bíblicos

Uma equipe de arqueólogos israelenses descobriu uma mensagem enigmática deixada em um fragmento de cerâmica de 3.000 anos de idade. A peça de cerâmica com tinta em argila, chamada de óstraco, foi originalmente descoberta na década de 1960, em Tel Arad, a oeste do Mar Morto. Agora, usando uma nova tecnologia de imagem multiespectral, pesquisadores da Universidade de Tel Aviv conseguiram iluminar um texto que se escondeu no óstraco por todos esses anos.

Milhares de anos atrás, Tel Arad era um posto avançado militar, então faz sentido que a “frente” desse óstraco em particular detalhe finanças militares. A parte de trás, no entanto, parecia vazia. Mas após revisitar o óstraco com técnicas experimentais de imagem multiespectral, a equipe da Universidade de Tel Aviv conseguiu mostrar que o lado reverso está repleto de texto — e, como todas as boas mensagens, se tratava de vinho.

“A nova inscrição começa com um pedido por vinho, além de uma garantia para assistência caso o destinatário tenha qualquer pedido próprio”, disse Arie Shaus, coautor do estudo e membro do departamento de matemática aplicada da Universidade de Tel Aviv, em entrevista ao Breaking Israel News. “[A mensagem] Conclui com um pedido de fornecimento de uma determinada mercadoria para uma pessoa não nomeada, e um recado em relação a um ‘bato’, medida antiga de vinho, levada por um homem chamado Ge’alyahu.”



A pesquisa da equipe, que foi publicada na PLOSOne, detalha seu método singular. Eles usaram uma câmera digital Canon SLR 450D modificada e uma lente macro Tamron SP AF90mm F/2.8 Di 1:1 para fotografar o óstraco em uma câmara escura.

“O filtro de corte interno da Canon IR foi removido por Lifepixel e substituído por um vidro transparente com o mesmo índice refrativo”, escreveu o grupo. Usando uma gama de filtros, a equipe enfim conseguiu revelar a mensagem escondida.

A esperança é de que a técnica possa ser usada para ler mensagens escondidas em outros óstracos. Vai saber que fofoca boa dos tempos bíblicos a gente não deixou escapar esses anos todos?

Fonte: PLOS One



domingo, 11 de junho de 2017

Como uma máscara de cobre de 3 mil anos está reescrevendo a história da América do Sul

Uma máscara de cobre quadrada retirada de uma tumba no sul dos Andes está mudando as nossas noções de onde e quando a metalurgia sofisticada apareceu pela primeira vez na América Pré-Colombiana.

Evidências arqueológicas sugerem que a metalurgia na América Pré-Colombiana apareceu pela primeira vez nos Andes, com o Peru sendo provavelmente o seu ponto de origem. Mas, conforme um novo estudo publicado na Antiquity mostra, a descoberta de uma máscara de 3 mil anos de idade no território argentino no sul dos Andes sugere que mais de uma região esteve envolvida no desenvolvimento dessa importante tecnologia.

A máscara de cobre altamente corroída foi descoberta em 2005, em La Quebrada del valle del Cajón. Aldeões notaram a máscara saindo do chão e notificaram uma equipe de arqueólogos que estava trabalhando perto da área. Uma escavação mais tarde revelou os restos de esqueleto dispersos de 14 indivíduos em uma única cova comum. O buraco está localizado próximo ao sítio arqueológico de Bordo Marcial, que era lar de uma vibrante comunidade por volta de 1.800 a 1.900 anos atrás.


À esquerda: a cova com os restos de esqueleto. O círculo mostra onde a máscara foi encontrada. À direita: desenho do sítio (Imagem: L. I. Cortés et al., 2017/Antiquity)

O túmulo parece ter sido um tipo de tumba, apresentando uma parede de rocha e contendo um pingente e uma máscara de cobre. A máscara estava sobre os corpos, sugerindo que foi usada durante uma cerimônia de funeral. Pelo fato de alguns dos ossos estarem com manchas verdes da máscara de cobre, os arqueólogos suspeitam que ela tenha sido enterrada junto com os corpos.

Uma datação por radiocarbono estimou que os ossos eram de algum período entre 1414 e 1087 a.C. Historicamente, esse foi um momento importante para a região, conforme os povos pré-colombianos transicionaram de caçadores-coletores para precursores de assentamentos agrícolas. E, conforme a nova análise da máscara, feita por Leticia Inés Cortés e María Cristina Scattolin, da Universidade de Buenos Aires, revela, essa população, em particular, já tinha se deparado com as maravilhas do cobre.

A máscara tem 17,78 cm de altura, 15,25 cm de largura e um milímetro de espessura. Buracos foram perfurados na máscara para formar um par de olhos, um nariz e uma boca. Nove buracos circulares foram feitos nas bordas; um fio ou outro material pode ter sido usado para entrepassar esses buracos, permitindo que uma pessoa pudesse vestir a máscara. Outra alternativa é que a máscara possa ter sido parte de algo mais amplo, cujos restos ainda não foram encontrados.

A máscara em si é feita de cobre puro, com impuridades menores que 1%. A fonte do cobre bruto provavelmente veio do Valle de Hualfín, na província de Catamarca, que fica a cerca de 70 km do sítio arqueológico e que hoje tem uma grande mina de cobre. Arqueólogos dizem que a máscara foi fabricada por meio de uma técnica repetitiva em que o cobre era reaquecido e martelado a frio.

O surgimento da metalurgia, e dos trabalhos em cobre, especificamente, representa um importante marco para as civilizações antigas. Conforme os humanos começaram a fazer experimentos com metais e foram melhorando sua elaboração para servir à sua vontade, civilizações se desenvolveram com isso. Por sua vez, isso resultou no uso expandido do cobre e, mais importante, no desenvolvimento do bronze (que é um metal muito duro, feito de cobre, arsênico e estanho), que era mais adequado para armas e ferramentas.

Existe muita evidência arqueológica de trabalho inicial de metalurgia nos Andes Peruanos, uma tecnologia que, eventualmente, se espalhou para outras áreas das Américas Central e do Sul. Evidências de fundição de cobre foram descobertas na Bolívia, datando dentre 3.160 e 2.200 anos atrás, e fragmentos de cobre laminado foram encontrados em Mina Perdida, Valle del Lurín, datando de cerca de 3.000 a 3.120 anos atrás. Mas nenhum desses artefatos havia sido intencionalmente moldado em uma forma reconhecível, tampouco perfurado ou transformado em objetos tridimensionais.

A descoberta de uma máscara humana de cobre na região de Cajón sugere que essa região foi um importante ponto de origem da metalurgia de cobre, ou pelo menos um lugar em que a tecnologia surgiu independentemente. Como concluem os pesquisadores em seu estudo, essa máscara de 3 mil anos de idade “empurra para trás a linha do tempo da produção de artefatos de cobre intencionalmente moldados nos Andes”.

Fonte: Antiquity

 

Cientistas encontram bebê pássaro de 99 milhões de anos de idade quase inteiro dentro de âmbar

Este tem sido um grande ano para a descoberta de espécimes presos em âmbar, desde asas de pássaros, passando por penas de dinossauros até este inseto feioso. Mas esta nova descoberta pode ser a melhor que tivemos até agora: um bebê pássaro quase completo de 99 milhões de anos de idade, que viveu no tempo dos dinossauros. Cientistas encontraram o espécime em Mianmar, onde outros já compraram ou encontraram várias outras amostras incríveis nas minas de âmbar.

“Ver um animal tão preservado em âmbar é empolgante”, o autor do estudo, Ryan McKellar, contou. “Neste caso, temos todo o lado direito do corpo.”



Imagem: Ming Bai

O âmbar birmanês é bastante incrível. Não apenas são peças geralmente grandes e translúcidas, como também as minas no norte de Mianmar renderam muitos insetos e plantas incríveis recentemente, de acordo com a pesquisa publicada nesta quarta-feira, no periódico Gondwana Research.

Essa amostra específica preserva um bebê pássaro enantiornithe, que provavelmente estava parcialmente em sua primeira muda de penas, alguns dias ou semanas depois de chocar. A equipe analisou o pássaro com microscópios e uma microtomografia computadorizada, essencialmente um tipo especial de raio-x, para criar reconstruções em 3D. “É legal, porque preserva um estágio de crescimento muito inicial”, disse McKellar. A criatura ainda estava desenvolvendo as penas de sua cauda.



Imagem: Ming Bai

Os enantiornithes estão intimamente relacionados com os pássaros modernos. Mas, diferentemente das criaturas que fazem cocô em cima do seu carro, esse pássaro possuía dentes, garras em suas asas, um arranjo diferente de ossos em seus tornozelos e não tinha bico, disse McKellar. A amostra preserva uma estranha combinação de características, como penas de asa funcionais, mas não muitas penas no restante do corpo.

Infelizmente, embora o pássaro pareça bem legal, provavelmente não há nenhum DNA restante para fazer algum tipo de recriação maluca no estilo Jurassic Park, segundo a New Scientist. Toda a sua carne se transformou em carbono inutilizável.



Essa provavelmente não será a última ou a mais maluca amostra já encontrada em âmbar burmanês. Mas, até que a próxima apareça…

Fonte: New Scientist


Incrível descoberta mostra que Homo sapiens é 100 mil anos mais velho do que pensávamos

Os restos mortais de cinco Homo sapiens antigos foram desenterrados em um sítio no noroeste africano. Com cerca de 300 mil anos de idade, os fósseis são impressionantes 100 mil anos mais velhos do que o registro anterior, empurrando a origem da nossa espécie significativamente para trás. E, pelo fato de eles terem sido localizados em Marrocos, longe do suposto ponto de origem da nossa espécie, a descoberta também apaga as noções anteriores sobre como os humanos modernos evoluíram.

A origem da nossa espécie é envolta em mistério, dados os pobres registros fósseis e a imensa escassez de evidências genéticas. A surpreendente descoberta dos restos fossilizados dos cinco humanos primevos no sítio em Jebel Irhoud, no Marrocos — junto com evidências de ferramentas de pedra, ossos de animais e uso de fogo — acrescenta uma importante peça a esse frustrantemente incompleto quebra-cabeças arqueológico. Como essa descoberta mostra, a nossa espécie, conhecida pela nomenclatura científica Homo sapiens, existe há mais tempo do que imaginávamos — tem mil anos a mais, para sermos mais precisos. Podemos dizer agora, com certa confiança, que a espécie a que eu e você pertencemos surgiu na África cerca de 300 mil anos atrás. É concebível, é claro, que os arqueólogos possam achar espécimes mais antigos no futuro, mas, por agora, estabelecemos o mais antigo Homo sapiens.

Além do mais, a nossa espécie não se originou de uma parte isolada da África, mas através do continente inteiro. Como o coautor do estudo Jean-Jacques Hublin, do instituto Max Planck para antropologia evolucionária, explicou em uma conferência para a imprensa nesta terça-feira (6), “não existe um Jardim do Éden na África, porque o Jardim do Éden é a África”. Os primeiros hominídeos bípedes dos quais descendemos podem ter surgido no interior da África, mas as espécies que se tornaram o Homo sapiens estavam pelo continente inteiro — e no noroeste da África em particular. Essas conclusões agora aparecem em dois estudos separados, ambos publicados nesta quarta-feira (7), no periódico científico Nature. No primeiro artigo, os cientistas descrevem os fósseis encontrados no sítio; no segundo, analisam e datam as ferramentas de pedra.

Antes dessa nova descoberta, as amostras mais antigas de Homo sapiens foram desenterradas na Etiópia e datavam dentre 150 mil a 200 mil anos. Estranhamente, os neandertais e o Homo sapiens “arcaicos” (humanos imediatamente anteriores ao Homo sapiens que viveram entre 300 mil a 150 mil anos atrás) divergem de um ancestral comum cerca de 500 mil a 600 mil anos atrás. A falta de provas fósseis anteriores a 200 mil anos atrás levou alguns cientistas a teorizarem que o Homo sapiens devia ter surgido bem abruptamente, provavelmente a partir de uma espécie antecessora chamada Homo heidelbergensis (como nota, qualquer hominídeo com a palavra “Homo” na frente é considerado um humano).



Duas visões dos crânios encontrados no sítio Irhoud (Crédito: Sarah Freidline, MPI-EVA, Leipzig)

Essa nova descoberta, que mostra que uma versão mais antiga do Homo sapiens estava dando uma volta no noroeste da África cerca de 300 mil anos atrás, agora entra em embate com essa teoria do “surgimento abrupto”. Depois de divergirem de um ancestral em comum, um grupo de Homo sapiens arcaicos se espalharam pela África, gradualmente adquirindo os traços que eventualmente viriam a caracterizar a nossa espécie.

Para alcançar essa conclusão, os autores do novo estudo combinaram novas e velhas evidências fósseis. Lá na década de 1960, fósseis humanos foram encontrados no mesmo sítio em Jebel Irhoud junto com ossos animais. Os fósseis foram originalmente datados em cerca de 40 mil anos de idade, e os restos, identificados com algum tipo de neandertal africano. Insatisfeitos com essa interpretação, os pesquisadores do instituto Max Planck de antropologia evolucionária e o National Institute for Archaeology and Heritage, em Marrocos, decidiram renovar a investigação, o que envolveu novas escavações no sítio marroquino. Isso levou à descoberta de restos parciais de esqueletos de cinco indivíduos, três adultos, um adolescente e uma criança, junto com ferramentas de pedra, ossos de animais e sinais de uso de fogo. Os arqueólogos esbarraram em uma antiga caverna usada por esses humanos para processar e consumir carne animal, basicamente gazelas e zebras. E, sim, os arqueólogos originais não acharam esses cinco espécimes — mas, para sermos justos, as escavações foram todas dentro e ao redor de uma mina, que agora é uma pedreira gigante.

Usando uma técnica conhecida como termoluminescência, os pesquisadores dataram os objetos desenterrados do sítio entre 300 mil a 350 mil anos de idade e usaram as ferramentas de pedra para datar os fósseis encontrados entre esses artefatos. Agora, essa é considerada a evidência mais antiga já encontrada dos mais antigos membros da linhagem Homo sapiens.


Algumas das ferramentas da idade da pedra encontradas no sítio (Crédito: Mohammed Kamal, MPI EVA Leipzig)

Um detalhe importante é que essa descoberta altera a origem geográfica da nossa espécie para longe das partes interiores da África. Centenas de milhares de anos atrás, o Saara era cheio de florestas e vastas planícies, tornando-o possível de ser atravessado para o norte pelos hominídeos em direção ao que é o Marrocos agora. No caso desses antigos Homo sapiens, eles provavelmente estavam seguindo rebanhos de gazelas enquanto migravam pela África, evoluindo novas habilidades cognitivas no caminho — habilidades cognitivas que os permitiriam criar ferramentas mais sofisticadas e adotarem comportamentos sociais complexos. Ao se espalhar por maior parte da África, esses hominídeos adquiriram os próprios traços que viriam a definir a nossa espécie.

Curtis W. Marean, especialista em origem humana da Universidade Estadual do Arizona e que não esteve envolvido no estudo, diz que a nova descoberta é importante, mas não completamente surpreendente.

“A estimativa de idade anterior dos hominídeos de Jebel Irhoud nunca fez sentido, por dois motivos”, disse ao Gizmodo. “Primeiro, a morfologia era muito primitiva para a idade relativamente nova; e, segundo, a evidência sugeria que o Magrebe tinha sido abandonado durante um período em que era evidentemente árido. Então, essa idade mais antiga faz muito sentido. Estou feliz que essa equipe tenha resolvido esse problema.”

Marean diz que os fósseis têm muita semelhança com uma caveira distintamente parecida com a humana, chamada de crânio de Florisbad, descoberta na África do Sul em 1932. “A semelhança com esse espécime sugere que naquele tempo existia uma população panafricana que talvez fosse a mesma espécie”, afirmou. “Isso é importante para saber, mas talvez não inesperado.”



Uma mandíbula quase completa de um H. Sapiens adulto (Crédito: Jean-Jacques Hublin, MPI-EVA, Leipzig)

É importante saber que o termo “Homo sapiens” não é análogo ao termo “humanos modernos”. Os humanos antigos encontrados em Marrocos eram ligeiramente diferentes dos humanos que estão vivos hoje, mas essas diferenças não eram significativas o bastante para os pesquisadores encaixarem-nos em espécies separadas ou marcá-los como ainda mais um ramo do Homo sapiens arcaico. Ao fazer escaneamentos microcomputados dos fósseis, os pesquisadores detectaram alguns traços primitivos, como uma caixa craniana mais em baixo e menor, fortes cumes da testa e um rosto maior. Mas eles também tinham ossos malares delicados, um rosto distintivamente moderno e dentes e ossos do maxilar que eram virtualmente idênticos aos do Homo sapiens. Como Jean-Jacques Hublin apontou na conferência para a imprensa, “essas pessoas não se destacariam se você as visse na rua”.

O arqueólogo Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres e que não esteve envolvido no estudo, diz que arqueólogos e antropólogos devem adotar uma definição ampla de Homo sapiens, mas que ele próprio nem sempre se sentiu assim inclinado.

“Eu costumava defender que ‘humanos anatomicamente modernos’, incluindo fósseis que essencialmente parecem conosco hoje em dia, são o único grupo que deve ser chamado de Homo sapiens”, explicou ao Gizmodo por email. “Agora, acho que humanos anatomicamente modernos são apenas um subgrupo dentro da espécie Homo sapiens e que nós devemos reconhecer a diversidade de formas dentro dos Homo sapiens mais antigos, alguns dos quais provavelmente foram extintos.”

Realmente, muitos grupos diferentes de humanos existiam nessa época, mas foi o Homo sapiens que eventualmente prevaleceu, espalhando-se para fora da África em alguma época entre 60 mil a 70 mil anos atrás, e então se espalhando ainda mais, até Ásia, Austrália e Américas do Sul e do Norte. A nossa espécie é tudo o que restou de vários “experimentos” evolucionários de hominídeos que duraram cerca de centenas de milhares de anos ao redor da maior parte da África e, até certo ponto, da Europa.

Mas, como esses novos estudos mostram, os aspectos definitivos da nossa espécie surgiram como resultado da nossa necessidade de superarmos nossas limitações. Que humano de na nossa parte.

Fonte: Nature


terça-feira, 6 de junho de 2017

Cidade maia ‘descoberta’ por adolescente gera dúvidas entre especialistas

Boca de Fuego  Vista aérea do
sítio arqueológico de Uxmal,
em Yucatán, no México.

No dia 7 de maio, o jornal canadense Le Journal de Montréal informou que o adolescente William Gadoury, de 15 anos, havia descoberto uma nova cidade maia na Península de Yucatán, no México. Segundo o jornal, o menino estudou 22 constelações maias que aparecem no Códice Tro-Cortesiano do Museu da América de Madri (um dos três livros maias hieroglíficas conservados) e teve a iniciativa de colocá-las sobre um mapa do Google Earth. Assim percebeu que as estrelas correspondiam à localização de 117 cidades maias.

Há dois anos, esse estudante, então com 14 anos, foi convidado pela Agência Espacial do Canadá por seu projeto para estudar se as civilizações maias construíam suas cidades em correlação com a posição das estrelas. De acordo com o jornal canadense, foi ao analisar uma constelação que não estava no códice, mas em outro livro de cultura maia, que ele percebeu que tal constelação era formada por três estrelas e que no mapa do Google Earth apenas duas cidades coincidiam com os astros. Então ele pensou que deveria existir uma metrópole 118 em algum lugar de Yucatán.

No dia 7 de maio, o jornal canadense Le Journal de Montréal informou que o adolescente William Gadoury, de 15 anos, havia descoberto uma nova cidade maia na Península de Yucatán, no México. Segundo o jornal, o menino estudou 22 constelações maias que aparecem no Códice Tro-Cortesiano do Museu da América de Madri (um dos três livros maias hieroglíficas conservados) e teve a iniciativa de colocá-las sobre um mapa do Google Earth. Assim percebeu que as estrelas correspondiam à localização de 117 cidades maias.

Há dois anos, esse estudante, então com 14 anos, foi convidado pela Agência Espacial do Canadá por seu projeto para estudar se as civilizações maias construíam suas cidades em correlação com a posição das estrelas. De acordo com o jornal canadense, foi ao analisar uma constelação que não estava no códice, mas em outro livro de cultura maia, que ele percebeu que tal constelação era formada por três estrelas e que no mapa do Google Earth apenas duas cidades coincidiam com os astros. Então ele pensou que deveria existir uma metrópole 118 em algum lugar de Yucatán.

No referido artigo se menciona que o jornal teve acesso a algumas dessas imagens de satélite nas quais podem ser vistas diferentes estruturas do que poderia ser uma cidade antiga. Armand LaRocque, especialista em sensoriamento remoto da Universidade de New Brunswick, disse ao Le Journal de Montréal, que as formas geométricas que aparecem nas fotos dificilmente poderiam ser atribuídas a fenômenos naturais.

Embora Gadoury não tenha confirmado sua teoria, pois não pôde ir até o lugar, chamou a hipotética cidade perdida de K’ÁAK Chi, que significa Boca de Fuego. De acordo com suas pesquisas, o lugar pode ter uma área total que oscila entre 20 e 80 quilômetros quadrados e ter tido uma pirâmide 86 metros e 30 estruturas, o que poderia posicioná-la como a quarta cidade maia mais importante.


A posição dos arqueólogos mexicanos

Para alguns pesquisadores mexicanos e especialistas em arqueologia, a suposta descoberta de William é um exagero, uma teoria que deve ser verificada e uma especulação arriscada. “Os maias não projetavam suas cidades e nem suas paisagens orientados pelas estrelas. Eles o fizeram com base em fatores tão mundanos como fontes de água e de matérias-primas e disponibilidade de solo utilizável para o cultivo. De que eles viveriam, de olhar para o céu?”, diz numa entrevista ao EL PAÍS o professor e pesquisador do Laboratório de Zooarqueologia da Faculdade de Ciências Antropológicas da Universidade Autônoma de Yucatán.

“Existe uma grande quantidade de cidades pré-hispânicas ainda escondidas na floresta (em Campeche, Quintana Roo, Yucatán), por isso não parece estranho que o menino tinha encontrado algum lugar com ruínas ao aplicar um padrão à floresta ou às ruínas existentes. Isso tem a ver com o afluxo de contextos pré-hispânicos mais do que com alguma fórmula ancestral ou algo parecido”, explica.

Por seu lado, Héctor Hernández Álvarez, mestre em Ciências Antropológicas com especialização em Arqueologia pela Universidade Autônoma de Yucatán, acredita que a ideia não é absurda considerando a precisão das observações astronômicas dos maias. “Atualmente, as novas tecnologias de sensoriamento remoto permitem identificar assentamentos ou descobrir lugares que foram ocupados por grupos humanos no passado. O que temos de verificar é se isso realmente coincide com a ideia de que as cidades maias foram planejadas com base em um cosmograma”, detalha.

 O códice Tro-Cortesiano contém cenas
divinatórias em um contexto de ciclos
calendáricos (tzolkin e haab) e direções
do universo. Instituto Nacional de
Antropologia e História.
Rafael Cobos Palma, membro do Sistema Nacional de Pesquisadores e doutor em Antropologia pela Universidade de Tulane (Estados Unidos), acredita que o lugar onde Gadoury encontrou a estrutura está muito perto de Calakmul, Uxul e Tortuga, sítios maias situados no sul de Campeche. “Essa é uma área grande e bastante explorada desde a década de 1930 por muitos pesquisadores mexicanos e não mexicanos”, diz. “A proposta peculiar de explicar a distribuição espacial dos assentamentos maias foi feita em outras ocasiões e, claro, movendo o plano celeste pode-se chegar a encontrar um sem-número de arranjos espaciais que se assemelham ao humanamente feito em nosso planeta”.

Para Cobos, a ciência é construída com pesquisa e se o jovem quebequense quer dar a conhecer uma descoberta tão importante deve ir a campo para comprová-la. “Se descobrir a localização de sítios arqueológicos, saber a altura de seus edifícios e a área de seus assentamentos fosse uma tarefa fácil, então os arqueólogos não teriam que ir a campo e às instituições de apoio à pesquisa”, acrescenta. “O trabalho de pesquisa científica de um arqueólogo é algo sério, muito sério”.

O Instituto Nacional de Antropologia e História disse ao Verne que não pode avalizar a existência dessa cidade, nem as informações apresentadas pelo jornal canadense. Acrescentou que a teoria que propõe que os maias construíram cidades a partir de constelações foi descartada por seus arqueólogos.

Fonte: Link

O Santo Graal no ‘armazém da Arca Perdida’ de Israel

O Governo israelense custodia em armazém mais de um milhão de achados arqueológicos

Entre eles, objetos da época de Jesus

O Santo Graal, o cálice do qual bebeu Jesus na última ceia, provavelmente não era de cristal nem de metal, mas sim de pedra calcária, o material purificador preferido entre os judeus da primeira metade do século I para servir suas refeições. É o que explica em tom professoral Gideon Avni, chefe da divisão arqueológica da Autoridade de Antiguidades de Israel, durante uma incomum visita da imprensa ao lugar mais sagrado de sua pesquisa, que reúne mais de um milhão de restos da antiguidade localizados dentro do país desde seu nascimento, em 1948.

Não se trata de um bunker secreto inexpugnável nem de um recinto fortificado sob a proteção do Tzahal, o poderoso Exército israelense, mas sim de um armazém na cidade de Beit Semesh, no Distrito de Jerusalém. O edifício de aparência anódina esconde um depósito misterioso, cortado por fileiras intermináveis de estantes com sarcófagos e ânforas, além de caixas de madeira das quais emergem capitéis. Uma decoração apropriada para a cena final do primeiro filme da saga cinematográfica de Indiana Jones: o misterioso depósito governamental onde fica oculta, precisamente, a Arca da Aliança.

Junto à taça das primeiras décadas da era cristã se alinham pratos e vasilhas de pedra calcária à vista das câmeras dos jornalistas. Também se vê um pequeno ossário, em que se vê inscrito o nome de Jesus. Em uma tumba judaica similar foi encontrado o calcâneo (osso do calcanhar) de um homem atravessado por um grosso prego de 15 centímetros de comprimento. "Jesus, Maria e José eram nomes hebraicos comuns naquela época", assinala Avni. "Em relação à crucificação, trata-se de um método de execução habitual sob o Império Romano", acrescenta o professor ao lado de uma réplica do tarso perfurado, "embora nestes restos o prego atravesse de forma lateral o osso, e não frontal, como na iconografia clássica".

Uma estudante examina vasilhas no Depósito dos Tesouros Nacionais.

“Pudemos reconstituir como se desenvolvia a vida cotidiana durante o primeiro terço do século I, que coincide com a vida do Jesus segundo a tradição cristã, mas não provar sua existência”, afirma o chefe do serviço de arqueologia israelense. “Havia mais de um milhão de habitantes na região, e é muito difícil identificar os restos de alguém que pode ter vivido há mais de 2.000 anos.”

No Depósito dos Tesouros Nacionais de Beit Semesh − que em um futuro próximo deverá ser transferido para as imediações do Museu de Israel, no centro de Jerusalém −, conservadores e técnicos mostram aos fotógrafos moedas do século VII e cruzes e relicários também da era bizantina. Mostram também um capitel com uma menorá (candelabro de sete braços) gravada nele com credenciais históricas judaicas.

A arqueóloga Annette Landes-Nagar mostra algumas
moedas da época do Império Bizantino.

Este gigantesco armazém arqueológico não pode ser visitado pelo público e só abre suas portas aos pesquisadores. Como em quase todos os aspectos da vida no Oriente Médio, a geopolítica também pesa sobre os restos antigos que estão armazenados. Em suas instalações só se custodiam objetos localizados em território israelense desde sua fundação como Estado, há 69 anos, e em Jerusalém Oriental (ocupada desde 1967 e anexada em 1980).

Os achados procedentes de escavações anteriores se encontram principalmente no Museu Rockefeller, construído sob o Mandato Britânico na zona oriental da Cidade Santa, diante do antigo recinto amuralhado. A conservadora Débora Ben Ami, de origem argentina, assinala que os restos arqueológicos procedentes da Cisjordânia, sob ocupação israelense há quase meio século, são levados por enquanto para um armazém perto do assentamento de Maale Adumin, situado apenas cinco quilômetros a leste de Jerusalém.

O percurso recente de correspondentes estrangeiros em Israel pelas instalações do Depósito dos Tesouros Nacionais foi patrocinado pelo Ministério do Turismo, em uma iniciativa destinada a promover as visitas de peregrinos cristãos à Terra Santa. Um negócio que representou um quinto do total de 2,8 milhões de entradas de viajantes no país em 2015. Nas mesmas datas ocorreu também a apresentação oficial da restauração do templo do Santo Sepulcro, em Jerusalém, uma obra custeada pelas congregações religiosas do local com ajuda das autoridades jordanianas e palestinas, que atraiu a atenção da imprensa internacional.

Um terço dos 40.000 objetos arqueológicos localizados a cada ano em 300 escavações em Israel está relacionado com o cristianismo. No momento, quase todos continuam empacotados em um armazém com ares de filme de Steven Spielberg. Como o cálice de pedra calcária que pode muito bem ter estado nas mãos de Cristo. É a boa nova que pregam os arqueólogos.

Fonte: Link

“Os humanos inventaram a agricultura para fazer cerveja”

Em livro, Karin Bojs faz uma retrospectiva dos últimos 55.000 anos de pré-história na Europa, do sexo com os neandertais até a chegada da agricultura

A jornalista Karin Bojs. Bernardo Perez

A pré-história europeia escrita por a jornalista científica Karin Bojs (Lundby, Suécia, 1959) começa com um estupro. Um esbarrão sexual entre duas espécies humanas diferentes ocorrido há 55.000 anos na região hoje ocupada por Israel. O caráter consentido ou não da relação pode ser objeto de especulação, mas o sexo entre neandertais e Homo sapiens já foi comprovado cientificamente graças ao trabalho do geneticista sueco Svante Pääbo. Esse pioneiro da análise de DNA antigo conseguiu sequenciar o genoma completo da espécie extinta e agora sabemos que 2% de nossos genes são fruto daquele cruzamento.

Em seu livro Min Europeiska Familj (“minha família europeia”, ainda inédito no Brasil), Bojs
reúne a informação mais atualizada sobre a vida dos habitantes do continente antes do surgimento da escrita. Os dados acumulados por diferentes métodos de pesquisa, da arqueologia mais clássica às inovações científicas introduzidas por profissionais como Pääbo, sugerem que os europeus de hoje são fruto de três ondas migratórias. A primeira, pouco depois do encontro com os neandertais no Oriente Médio, trouxe os caçadores e, provavelmente, acarretou a extinção daquela que até então era a espécie humana da Europa. Uma segunda onda trouxe os agricultores do que hoje é Síria e, com eles, seu conhecimento do cultivo das plantas. Por último, há 5.000 anos, partindo do sul do que hoje é a Rússia, chegou um povo de pastores que trouxe consigo as línguas indo-europeias atualmente faladas na Europa, os cavalos e uma sociedade patriarcal e estratificada.

"A agricultura foi inventada uma vez e chegou à Europa com os povos que a haviam inventado"
 
Pergunta. Antes do conhecimento que o sequenciamento do DNA antigo proporcionou, acreditava-se que a agricultura foi inventada em muitos lugares ao mesmo tempo.

Resposta. Sim, era como uma espécie de dogma. A teoria segundo a qual a agricultura veio da Síria com a migração dos próprios agricultores que a haviam inventado, que agora parece a correta, era chamada de “migracionismo” com um tom pejorativo. Os filhos da geração de 68 viveram uma reação ao nazismo. Antes da Segunda Guerra Mundial, a arqueologia e a história estiveram muito influenciadas pelos nazistas, e, quando chegou a reação, foi um pouco exagerada. Rejeitou-se tudo, negou-se que houvesse influência das migrações ou dos genes, tudo era cultura e sociologia, e afirmavam que os caçadores se reeducaram e decidiram que não queriam mais ser caçadores e passaram a ser agricultores. Se você pratica a agricultura, sabe que é muito difícil. São necessários muitos anos para aprender a cultivar. Havia uma minoria de arqueólogos que queria explicar a aparição da agricultura na Europa através da migração, e o DNA provou que esta minoria estava certa.

P. Mas parece que a agricultura apareceu em muitos lugares separados sem contato aparente, como na América e na Índia.

R. Isso foi um pouco depois, e de fato não podemos ter certeza. O que sim sabemos pelos dados da Europa é que a agricultura chegou acompanhada dos humanos que a conheciam e que migraram com ela através de grandes distâncias.

P. Em seu livro, você também fala da hipótese que propõe que a agricultura foi inventada, entre outras coisas, para produzir bebidas alcoólicas.

R. Arqueólogos alemães encontraram em um lugar chamado Göbekli Tepe, na parte leste da atual Turquia, taças e grandes baldes do tamanho de uma banheira onde viram enzimas que seriam restos da fabricação de cerveja. Eles estão convencidos de que havia um culto neste local erguido por culturas tardias de caçadores. As pessoas vinham de muito longe, até centenas de quilômetros, a fim de se reunir ali para celebrações. Esses arqueólogos acreditam que o consumo de cerveja era uma parte importante dessas celebrações, e isso faz sentido. Não acredito que comer purê fosse um impulso suficientemente importante para começar uma nova cultura e um novo estilo de vida.

"As pessoas vinham de muito longe a fim de se reunir ali para celebrações. Não acredito que comer purê fosse um impulso suficientemente importante para começar novo estilo de vida"

Os grãos já eram parte da dieta durante muitos anos antes da aparição da agricultura. Coletavam trigo e cevada, isso era parte do processo, mas se de repente você precisa de grandes quantidades de grão para produzir cerveja, acredito que seja um incentivo interessante. A agricultura obviamente foi um processo muito complicado, e também tem a ver com a mudança climática. Houve uma mudança climática muito brusca quando acabou a última glaciação e o Oriente Médio se tornou mais úmido e facilitou o cultivo. Se você havia tentado cultivar algumas plantas, estava no lado ganhador quando se produziu essa mudança de condições.

P. Alguns cientistas propõem que adotar a agricultura foi o pior erro da humanidade, que piorou suas condições de vida. Você discorda.

R. Não gosto dessa ideia. Acho que há vários divulgadores científicos que também insistem em que a agricultura foi uma catástrofe e que os caçadores viviam em um estado feliz e natural, e que a agricultura e o gado foram uma catástrofe. Acredito que seja uma forma muito simplista de analisar a mudança. Se você olha para a pré-história, há altos e baixos no nível de vida, no período dos caçadores e nos períodos da agricultura. Como outras invenções, não é algo que surgiu de uma decisão premeditada. Tratava-se de ir resolvendo pequenos problemas na vida daquelas pessoas. Por exemplo, a cerveja pode ter surgido assim. Sabemos que você pode ficar um pouco alterado se ingere uma substância, e os agricultores fizeram isso. E então pensaram em produzir mais disso que gostavam, e para fazê-lo precisavam cultivar. E assim se acumularam muitas soluções para pequenos problemas práticos que acabaram por produzir uma grande transformação.

P. Em seu livro, você considera provável que nossa espécie tivesse um papel importante na extinção dos neandertais, mas fala de uma convivência pacífica entre a primeira onda de caçadores que chegou à Europa e a dos agricultores.

R. Como a arqueologia só nos oferece alguns vestígios, não se pode saber com certeza, mas não há achados que indiquem que havia grandes enfrentamentos. Faz sentido, porque, se você for um caçador, precisa de animais para matar ou de peixes para comer. Se for um agricultor, precisa de um bom solo. Parece que eles conviveram bem. Ao cabo de um tempo, houve uma fusão. Os caçadores e os agricultores se encontraram e tiveram filhos. E isso pode ser visto muito claramente na Espanha.

Na Espanha vivia uma população de caçadores e depois chegaram os agricultores. Chegaram de barco através do Mediterrâneo, há 7.000 anos, e se pode ver que depois de certo tempo se fundem. A população basca da Espanha, e isso se vê também em seu DNA, são ainda os netos desta fusão, da primeira onda, dos caçadores, e da segunda, dos agricultores, mas não da terceira onda, a que trouxe as línguas indo-europeias. Eles falam basco, que não é uma língua indo-europeia. Talvez o basco seja como um vestígio de uma antiga língua dos agricultores.

Fonte: Link


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Descoberto acampamento usado por vikings para invadir a Inglaterra

Campo serviu como base temporária durante campanha no fim do século IX

Estabelecido em Torksey, nas margens do Rio Trent, no condado de Lincolnshire, ao Norte de Londres, milhares de homens, mulheres e crianças viveram em tendas no maior acampamento viking já descoberto na Inglaterra. De acordo com pesquisadores das universidades de Sheffield e York, responsáveis pelo achado, o local foi usado como base temporária durante a invasão da Inglaterra no século IX.

Os vikings já haviam invadido monastérios costeiros, mas retornavam à Escandinávia no inverno, mas no fim do século IX eles vieram em maior número e decidiram ficar — disse Julian Richards, do departamento de Arqueologia da Universidade de York. — Isso mandou uma mensagem clara de que agora eles planejavam não apenas saquear, mas controlar e conquistar.

Os vikings iniciaram suas incursões em terras inglesas no final do século VIII, mas apenas com saques a vilarejos e monastérios. Em 865, eles desembarcaram uma poderosa força militar no Norte da Inglaterra, e numa campanha que durou 14 anos conquistaram três dos quatro reinos existentes na época. O acampamento de Torksey serviu para abrigar essas forças, que ficaram conhecidas como o Grande Exército Viking.

Os restos arqueológicos revelaram que o acampamento não era apenas utilizado por guerreiros, mas também por mulheres e crianças. O local foi usado como posição defensiva e estratégica durante os meses de inverno, onde os vikings reparavam seus navios, derretiam o metal saqueado, produziam, realizavam trocas e se divertiam. Segundo Dawn Hadley, do departamento de Arqueologia da Universidade de Sheffield, o acampamento era maior que a maioria das cidades contemporâneas.

— Do que nós encontramos no local, nós sabemos que eles estavam consertando seus navios e derretendo ouro e prata saqueados para fazer lingotes, barras de metal usados para o comércio — disse a pesquisadora. — Detectores de metal também encontraram mais de 300 peças de chumbo de jogos, sugerindo que os vikings, incluindo mulheres e crianças, passavam muito tempo jogando para passar o tempo, esperando pela primavera e o início da próxima ofensiva.

Pesos usados por mercadores
vikings encontrados em Torksey
- Universidade de Sheffield

O acampamento de Torkey foi descrito em crônicas anglo-saxãs, mas a localização exata e a escala era tema de debate que durou anos, até agora. Com o uso de detectores de metais, os arqueólogos descobriram mais de mil artefatos, incluindo cerca de 300 moedas, sendo mais de cem delas moedas de prata árabes, que chegaram à região por rotas de comércio estabelecidas pelos vikings.


Foram encontrados mais de 50 fragmentos de prata, incluindo pedaços de broche e lingotes, além de fragmentos de ouro. Segundo essas evidências, os arqueólogos sugerem que esses itens estavam sendo processados no acampamento, cortados em pequenos pedaços para serem derretidos.

Por meio da análise do terreno, os pesquisadores determinaram que o acampamento ocupava área de 55 hectares, maior que a maioria das cidades da época, incluindo York. A topografia, com o Rio Trent a oeste e circundado por terrenos alagados, indica que o local foi escolhido por seu potencial defensivo.

As informações coletadas em campo foram utilizadas para recriar digitalmente o acampamento de Torksey. O material produzido pela Universidade de York está sendo exibido no Museu Yorkshire, numa experiência de realidade virtual.

As pesquisas foram usadas para criar as imagens mais realísticas do acampamento, baseadas em achados reais — disse Gareth Beale, do laboratório de Criatividade da Universidade de York.

Fonte: OGLOBO



segunda-feira, 8 de maio de 2017

O que diz o primeiro documento escrito da história

Na Antiguidade, acreditava-se que a escrita vinha dos deuses. Os gregos pensavam tê-la recebido de Prometeus. Os egípcios, de Tot, o deus do conhecimento. Para os sumérios, a deusa Inanna a havia roubado de Enki, o deus da sabedoria.

Mas à medida que essa visão perdia crédito, passou-se a investigar o que levou civilizações antigas a criar a escrita. Motivos religiosos ou artísticos? Ou teria sido para enviar mensagens a exércitos distantes?

O enigma ficou mais complexo em 1929, após o arqueólogo alemão Julius Jordan desenterrar uma vasta biblioteca de tábuas de argila com figuras abstratas, um tipo de escrita conhecida como "cuneiforme", com 5 mil anos de idade, mais antigas que exemplares semelhantes encontrados na China, no Egito e na América.

As tábuas estavam em Uruk, uma cidade mesopotâmica - e uma das primeiras do mundo - às margens do rio Eufrates, onde hoje fica o Iraque. Ali, desenvolveu-se uma escrita que nenhum especialista moderno conseguia decifrar. E o que diziam as tábuas?

Quebra-cabeça

Havia ainda em Uruk outro quebra-cabeça arqueológico que não parecia ter nenhuma relação com as escrituras: suas ruínas e de outras cidades da Mesopotâmia estavam repletas de pequenos objetos de argila, uns em formato de cone, outros, de esferas, e alguns, de cilindro.

Em seu diário, Jordan descreveu que esses objetos se pareciam com "itens cotidianos, como frascos, pães e animais". Para que serviam? Ninguém entendia, até a arqueóloga francesa Denise Schmandt-Besserat catalogar nos anos 1970 peças similares localizadas em toda a região, da Turquia ao Paquistão, algumas com até 9 mil anos de idade.

Uruk foi uma das primeiras cidades do mundo:
tinha ruas, lojas, casas e edifício de até
dez andares

Schmandt-Besserat concluiu que os objetos tinham um propósito simples: eram usados em um método de contagem por correspondência, ou seja, feito por meio da comparação entre grupos de objetos e suas quantidades.

Assim, peças com formato de pão poderiam ser usadas para contar pães; de jarra, para jarras; e assim por diante. Desta forma, não é preciso saber fazer uma contagem nem conhecer os números envolvidos, apenas verificar quantidades de cada grupo de itens e checar se são iguais.

A contagem por correspondência é inclusive mais antiga que Uruk. Com 20 mil anos de idade, o Osso de Ishango, fíbula de um babuíno encontrada próxima de uma nascente do rio Nilo na República Democrática do Congo, parece ter sido usado para contar fazendo marcas nele.

Mas as peças de Uruk eram mais avançadas, porque podiam ser usadas para contar quantidades diferentes, além de servir para somar e subtrair.

Na Antiguidade, acreditava-se que a
escrita era um presente divino

Artefato dos sumérios, que acreditavam que
a deusa Inanna roubara a escrita de Enki,
o deus da sabedoria

A economia de uma grande cidade como Uruk envolvia comércio, planejamento e arrecadação de impostos. Então, é possível imaginar os primeiros contadores da história, sentados na entrada de um armazém, usando peças com formato de pão para contar sacos de grãos que entravam e saíam.

Peças e tábuas

Mas Schmandt-Besserat notou outro aspecto revolucionário. As marcações abstratas nas tábuas cuneiformes coincidiam com as formas de diferentes peças.

Ninguém havia se dado conta da semelhança, porque a escrita não parecia representar nada. Mas Schmandt-Besserat entendeu o que havia ocorrido.

As tábuas tinham sido usadas para registrar o ir e vir das peças, que, por sua vez, registravam o trânsito de bens, como ovelhas, grãos e jarras de mel.

Assim, as primeiras tábuas podem ter sido feitas com impressões das próprias peças sobre a argila ainda mole. E os antigos contadores logo se deram conta de que seria mais simples fazer marcas nelas com uma lâmina.

Então, a escritura cuneiforme era uma símbolo estilizado de uma impressão de uma peça que representava um bem. Não surpreende que ninguém tenha feito tal conexão antes de Schmandt-Besserat.

Ela resolveu duas questões ao mesmo tempo. As tábuas de árgila adornadas com a primeira escrita abstrata do mundo não haviam sido usadas para escrever poesia ou enviar mensagens a lugares remotos. Foram empregadas para fazer contas - e também para elaborar os primeiros contratos.

Isso graças a uma combinação das peças e da escrita cuneiforme que permitiu criar uma ferramenta brilhante: uma bola oca de argila.

As partes externa e interna destas bolas de
argila serviam para registrar os termos
de um contrato

Na parte externa da bola, as partes envolvidas no contrato podiam escrever os detalhes do acordo. Dentro, colocava-se peças que representavam o contrato: a partir do que estava escrito do lado de fora, era possível checar a validade do que estava dentro.

Não se sabe quais eram as partes nestes contratos. Podiam ser dízimos religiosos para templos, impostos ou dívidas privadas. Mas as bolas serviam como ordens de compra e venda e tornaram possível a vida em sociedade em uma cidade complexa.

Trata-se de algo muito importante. A maioria das transações financeiras estão baseadas em contratos escritos: seguros, contas de banco, bônus do governo, acordos hipotecários. Tudo é registrado desta forma, e as bolas mesopotâmicas são a primeira evidência arqueológica de que contratos escritos existiam naquela época.

Números

O legado dos contatos de Uruk incluiu outra inovação. Em princípio, o sistema para registrar cinco ovelhas simplesmente requeria cinco impressões separadas para representá-las. Mas isso era trabalhoso.

Por isso, foi criado um novo sistema que incluía usar um símbolo abstrato para diferentes números: cinco linhas para o número cinco, um círculo para o número dez e três linhas para o número 23.

Os números sempre eram usados para se referir a uma quantidade de alguma coisa: não haviam "dez", apenas "dez ovelhas". Mas esse sistema era suficiente para registrar grandes quantidades, centenas e milhares.

Essa tábua é um recibo com registro de uma transação envolvendo gado

Um pedido de indenização por um ato de guerra de 4,4 mil anos atrás exigia, por exemplo, 4,5 bilhões de litros de grãos de cevada ou 8,94 "guru". Era um valor impagável, equivalente a 600 vezes a produção anual dos Estados Unidos hoje.

Foi desta forma que os cidadãos de Uruk resolveram um grande problema de qualquer economia moderna: como lidar uma rede de obrigações e planos de longo prazo entre pessoas que não se conheciam bem ou nem sequer se conheciam?

Para isso, criaram não só as primeiras contas e contratos, mas também os primórdios da matemática e da escrita. Então, escrever não foi um presente dos deuses, mas uma ferramenta desenvolvida por uma razão, gerenciar a economia! Será?.

Fonte: BBC

domingo, 30 de abril de 2017

Imagens esculpidas em pedra 13.000 anos atrás mostram impacto de cometa e mini Era do Gelo

Símbolos antigos esculpidos em pedra em um sítio arqueológico na Turquia contam a história de um impacto devastador que desencadeou uma mini Era do Gelo no nosso planeta, mais de 13.000 anos atrás.

A evidência, conhecida como Pedra do Abutre, sugere que vários fragmentos do cometa atingiram a Terra por volta de 11.000 a.C.

 



O impacto

As esculturas foram descobertas em Gobekli Tepe, um sítio arqueológico no sul da Turquia, que os especialistas acreditam agora que pode ter sido um antigo observatório.

Software de computador foi usado para combinar inscrições de animais – interpretados como símbolos astronômicos – a padrões de estrelas.

Os pesquisadores sugerem que o desastre ocorreu em 10.950 aC. Outras evidências encontradas em um núcleo de gelo na Groenlândia indicam um impacto aproximadamente no mesmo período.

Astrônomos antigos

“Parece que Gobekli Tepe foi, entre outras coisas, um observatório para monitorar o céu noturno”, disse o pesquisador Martin Sweatman, da Escola de Engenharia da Universidade de Edimburgo, na Escócia. “Um de seus pilares parece ter servido como um memorial para este evento devastador – provavelmente o pior dia da história desde o final da Idade do Gelo”.

As esculturas parecem ter permanecido importantes para Gobekli Tepe durante milênios, indicando um evento que teve um impacto muito sério e duradouro.

Uma série de símbolos na pedra sugerem que as mudanças de longo prazo no eixo de rotação da Terra foram registradas pelos primeiros astrônomos usando uma forma inicial de escrita.

A descoberta também apoia a teoria de que a Terra experimenta períodos em que impactos de cometa são mais prováveis, devido à órbita do planeta.

Fonte: NewScientist



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