quarta-feira, 6 de abril de 2011

Somos ensinados a ter uma visão seletiva da história?

Os estudos históricos mais recentes passam por um processo de reformulação preocupado em enfraquecer a predominância de certos paradigmas e personagens. Com isso, novos temas e contextos históricos passam a ser privilegiados com o objetivo de questionar antigas percepções e trazer uma nova ênfase a partes “esquecidas” do passado.

Como se consolidou uma visão onde as populações africanas acabavam sendo vistas como atrasadas, selvagens ou incivilizadas. Pode-se frisar como o colonizador do século XIX interpretava as condições da cultura e da história africana. Os europeus constituíram um discurso que julgava o povo africano enquanto pertencente a um estágio “primitivo” ou “pré-histórico” da civilização.



Em vista disso, fica claro o porquê de não encontrarmos em qualquer livro didático  a oportunidade de estudar ou ler sobre a história do povo núbio. A carência dessas informações pode ser vista como desdobramento dessa visão seletiva que continua reforçando que o mundo Ocidental não foi influenciado pelos africanos, e que outros povos não tiveram influencias culturais e religiosas de povos mais antigos, poderíamos renegar sua história a um plano inferior? Ou, reafirmando a perspectiva dos colonizadores, seriam eles “naturalmente” inferiores? Descobertas recentes provam o contrário.
Por: Rainer Sousa (Graduado em História)

O antibiótico criado pelo povo núbio
17.09.2010

Dois mil anos antes que Alexandre Fleming descobrisse a penicilina, os núbios, povo que habitou uma região próxima ao Egito, já se protegiam contra bactérias consumindo, regularmente, a tetraciclina, substância utilizada no tratamento de infecções. Porém, em vez de tomá-la em forma de pílulas ou injeções, tinham um modo bem mais palatável de se proteger: bebendo cerveja. Uma análise química de ossos de antigos núbios mostrou que eles já dominavam a arte de fabricar antibióticos.

A descoberta foi descrita no Jornal Americano de Antropologia Física e é fruto de uma pesquisa feita pelo bioarqueólogo e especialista em dietas ancestrais e pré-históricas George Armelagos, ao lado do químico Mark Nelson. Na década de 1980, Armelagos descobriu traços de tetraciclina em ossos de núbios datados entre 350 a.C. e 550 a.C. Uma das dificuldades em estudar o antigo Reino da Núbia, onde se localiza hoje o atual Sudão, é que essa civilização não deixou registros históricos escritos. Mais tarde, Armelagos conseguiu desvendarcomo o antibiótico aparecia na cerveja dos núbios.

O grão usado por eles para fermentar a cevada era contaminado pela bactéria Streptomyces scabies, micro-organismo que costuma atacar plantas. Ao ser fermentada, a cevada produz a tetraciclina. O que eles ainda não haviam descoberto era se apenas alguns lotes da antiga cerveja núbia continham a substância antibiótica, o que poderia indicar uma contaminação acidental. Especialista em tetraciclina e outros antibióticos, Mark Nelson se interessou pela pesquisa depois de ouvir uma palestra de Armelagos. "Pedi que ele me mandasse alguns ossos mumificados, porque eu tinha as ferramentas e a técnica para extrair deles a tetraciclina,é um processo repugnante e perigoso. Tive de dissolver os ossos no fluoreto de hidrogênio, o mais perigoso ácido do planeta."

Saturação - O resultado valeu o risco corrido. "Os ossos dos indivíduos dessa população ancestral estavam saturados de tetraciclina, mostrando que eles tomavam a substância por um longo período. Estou convencido de que eles tinham o conhecimento científico de que a fermentação produzia o antibiótico e o fabricavam propositadamente", afirma. No estudo, Armelagos lembra: "Temos a tendência de associar drogas que curam doenças à medicina moderna. Mas está ficando cada vez mais claro que a população pré-histórica usava provas empíricas para desenvolver agentes terapêuticos. Não tenho dúvidas de que os núbios sabiam o que estavam fazendo".

A tetraciclina foi encontrada até mesmo na tíbia de um garoto de 4 anos, sugerindo que os núbios prescreviam grandes doses da substância para as crianças, na tentativa de curá-los de doenças. A confirmação química de que a tetraciclina estava mesmo presente em ossos ancestrais não põe fim ao projeto de pesquisa de Armela depois de mais de três décadas investigando o assunto. "Isso abre uma nova área de pesquisa. Agora, vamos comparar a quantidade de tetraciclina nos ossos e a formação dos ossos com o passar dos tempos, para determinar a dosagem que os antigos núbios conseguiam obter."

Fonte: Diário de Pernambuco

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